quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Série "Por que estudamos certas coisas?": Ensino Religioso

E vamos ao episódio de hoje: Ensino Religioso.

Desde que eu me lembro, desde a Educação Infantil até o fim do Ensino Fundamental, eu tive aulas de Religião. Devo dizer que nunca foi a disciplina que eu mais apreciei, uma vez que apesar de ter tido uma criação católica, e ter estudado em um colégio de padres, minha ligação com isso tudo é praticamente nula. Seguindo essa ideia, eu sempre disse que estudar Religião era simplesmente inútil. Devo dizer que hoje ainda não me agrada, mas não deixarei de defender essa disciplina que por tanto tempo me deixou bastante confusa em relação a suas razões.

Por que escolhi Ensino Religioso como sendo minha segunda defesa? Porque certamente foi a mais insultada das disciplinas! E com os piores argumentos, eu diria!

“Religião. A única matéria na minha vida que eu realmente disse “Pra que isso vai servir?”. Mas realmente, era algo absurdo. Bom, antes de mais nada, a importância desta disciplina é, acima de tudo, saber que existem diferenças e que elas devem ser respeitadas. Outra coisa é você ter uma base do que cada um acredita, para não cometer erros na sociedade, pois cada religião traz um princípio do bom senso. Mas tudo tem seus limites. Acho que até a quarta série já está bom, no máximo a quinta, porque depois essa matéria realmente ENCHE O SACO. Afinal, eles só repetem tudo o que você já sabe, pelo menos foi o que aconteceu no meu caso. E foi por isso que eu disse que aquilo não ia servir para nada: tinha uma questão numa prova que você tinha que saber todos os detalhes do casamento hindu. GENTE? Será que não dá pra separar respeito de decoreba? De fato, isso não me vai ser útil, posso até ser um pouquinho mais culta, mas no mais,  isso será esquecido e não será utilizado para mais nada.”

Este texto provém de uma perspectiva ateísta um tanto radical, sem nenhuma chance de abertura a novas ideias. É um texto um tanto ridículo, desde a sua linguagem agressiva, às suas ideias e sua argumentação. Portanto vamos a nossa divisão:


Bom, antes de mais nada, a importância desta disciplina é, acima de tudo, saber que existem diferenças e que elas devem ser respeitadas.

Primeiro grande erro: a importância do Ensino Religioso inclui, mas não é somente a ideia de que existem diferenças que devem ser respeitadas (é claro que muitas religiões trazem consigo discussões morais e éticas por parte de outros grupos sociais, mas não entremos nisso). Questões religiosas são também questões culturais, históricas e geopolíticas. Elas influenciam diretamente no modo como vivemos, seja em qualquer lugar do mundo. Não é só no Oriente Médio ou na Inglaterra anglicana que há influência da Religião no Estado e na sociedade, diferentemente do que muita gente por aí pensa. O próprio Brasil já viu muito disso, e não só em questões grandes e discutíveis como a do Pastor Marco Feliciano. A influência é direta em nosso modo de vida, no nosso modo de ver as coisas, as pessoas, e também na ciência.

Já vimos muitos debates sobre o aborto e as pesquisas com células-tronco, baseados nos ideias ético-morais da Igreja Católica. Também sabemos que alguns costumes, tais como guardar o domingo, são influenciados pela religião. Não, não é à toa que é no domingo e não na quarta-feira que temos um dia de folga. Afinal, segundo a Bíblia, Deus teria descansado no sétimo dia. Seja esse dia qual ele for, o domingo foi institucionalizado e aqui estamos nós.

Em suma, o que eu quero dizer é que a Religião tem esporos espalhados por todos os cantos da sociedade, até onde menos esperamos - e isso acontece em todo o mundo.


Outra coisa é você ter uma base do que cada um acredita, para não cometer erros na sociedade, pois cada religião traz um princípio do bom senso.

De fato! É realmente importante conhecer esses princípios, você concorde com eles ou não. De uma maneira geral, posso dizer que, dentre meus conhecidos, a maioria das pessoas que frequentam templos e convivem em comunidade tende a ter boa conduta, ser firme na família e ter valores morais muito fortes. Mas como eu já salientei, essas pessoas são maioria, e não o todo. Infelizmente. Porém é sempre bom lembrar que não é só a vida espiritual que nos traz valores, e que somente ela provavelmente não será suficiente para tornar o indivíduo mais humanizado.


Mas tudo tem seus limites. Acho que até a quarta série já está bom, no máximo a quinta, porque depois essa matéria realmente ENCHE O SACO. Afinal, eles só repetem tudo o que você já sabe, pelo menos foi o que aconteceu no meu caso.

Sim, de fato, ao longo do tempo, quando você vai crescendo, você fica um pouco irritado com a matéria. Porém, é justamente o amadurecimento que nos faz enxergar a disciplina de Ensino Religioso de modos diferentes na 1ª e na 8ª série. O problema é, parece-me que hoje esse amadurecimento é muito mais tardio, e quando chegamos à oitava série, ainda somos crianças. Não só isso – não desenvolvemos nosso próprio pensamento. O que é lamentável, pois acabamos assim mantendo alguns preconceitos, tais como esse mesmo do qual estou tentando me redimir.


E foi por isso que eu disse que aquilo não ia servir para nada: tinha uma questão numa prova que você tinha que saber todos os detalhes do casamento hindu. GENTE? Será que não dá pra separar respeito de decoreba? De fato, isso não me vai ser útil, posso até ser um pouquinho mais culta, mas no mais,  isso será esquecido e não será utilizado para mais nada.

E é aí que eu me engano. Religião é mais do que adorar uma ou mais entidades. A Religião faz parte da Filosofia dos povos, não deixa de ser a busca pelo conhecimento verdadeiro. Dizer que nada disso é útil é negar o conhecimento. E negar o conhecimento é negar o diferencial do ser humano em relação aos outros animais. Negar a nossa essência.

Sem as considerações religiosas, a fé de cada uma das civilizações que formaram o mundo como o conhecemos hoje, o legados de cada crença deixou em todas as culturas, não teríamos chegado onde chegamos – seja isso bom o ou ruim – e certamente sem os questionamentos de tudo isso também não chegaríamos a lugar algum.

Agora, consideremos: será certo que todas as escolas, religiosas ou não, tenham aulas de Ensino Religioso?


Não creio que seja prudente responder sim ou não. Mas considero importante salientar, de maneira a concluir este post, que a Religião faz parte sim de todos os cantos da nossa sociedade; ela constitui as culturas, a Filosofia e até mesmo aquela que para muitos é sua “maior inimiga” – a ciência. O Ensino Religioso faz parte da formação do senso crítico do indivíduo e, se executado de maneira laica, imparcial, quem sabe ela poderá estar presente em todo e qualquer currículo do Ensino Fundamental.

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